sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Amando

Eu amo.
Amo tão completamente
Que chego a chamar amor
Ao que o não é verdadeiramente.

Amo.
Primeiro aos poucos, um de cada vez.
Depois enche-me, preenche-me um amor
Que muitos chamam de ceguez.

Eu amo e eles dizem,
Mas só dizem porque não amam.
E se sentissem, ainda que um aroma desse amor
Logo veriam que se enganam.

Duvida-se do que eu sinto
E mesmo assim vou amando.
Eu saberei que não minto,
Eles saberão que me engano.

domingo, 5 de setembro de 2010

Feliz

Aos nossos pés descansa o mar
Que faz crescer o sonho e deixa a alma respirar.
A noite traz o silêncio e o luar
E as estrelas que com o brilho o procuram ofuscar.
E estás aqui, junto a mim
Numa noite que desejei não ter fim.
Abraçados debaixo da lua,
As minhas mãos nas tuas.
O amor celebrado num beijo,
Nós os dois juntos num desejo.
Não falámos, mas sentimos,
Naquele silêncio que não se ouve mas diz.
E um suspiro voou, cantando:
Sou feliz.

domingo, 23 de maio de 2010

Respirar Fundo

Sentado na cadeira de pano admirava aquela imensidão de azul, aquele mar que reluzia tranquilamente e embalava na suavidade do seu respirar. A brisa calma surgiu levantando os seus cabelos, e ele fechou os olhos para sentir melhor a música da Natureza.

-Que vai desejar? – perguntou o empregado que entretanto se aproximara.

Abriu-os de novo e, olhando o horizonte à sua frente, pediu um Porto. Lembrava agora os últimos dias, meses, anos; As emoções que tinha sentido, os momentos por que havia passado, os erros que tinha cometido. Recordava a tristeza e a felicidade; a alegria e o remorso; a mentira e a verdade; o amor e a amizade. Saboreando aquele vinho doce, sentiu o peso duma vida mas a leveza dum futuro.

Estava alto ainda o sol quando quase sofregamente acabou de beber aquele copo e, respirando fundo, pediu bem alto:

-Mais um, por favor!




terça-feira, 20 de abril de 2010

A vela


Curiosa a maneira como vejo a vela neste momento. E as semelhanças que encontro com aquilo a que chamamos de amizade, de ajuda, de amor. Deixou de ser uma vela para ser um amigo que está aqui ao meu lado; não me julga, não me pergunta, não sabe mas ajuda-me, tal como eu o ajudo também. Não era nada senão um pavio seco, sem vida, sem emoção, até eu lhe dar o alimento que ela precisava, e de repente, iluminou-me, afastou-me da escuridão em que me encontrava, mostrando-me que há um mundo inteiro à minha volta.

E o que somos nós senão velas que foram em tempos pavios secos? Estávamos sós e surgiu alguém que nos deu o que precisávamos: sentimentos; de amizade, de amor, de saudade. Surgiu um amigo. E a partir daí fomos encontrando outros, fomos iluminando e sendo iluminados, fomos ensinando e sendo ensinados, fomos precisando e sendo precisos, fomos amando e sendo amados. Partilhámos esperança, alegria, sonhos e experiências. E juntos, fomos alimentando a chama enorme que vai percorrendo o pavio de cada um e que, até se esgotar finalmente, vai fazendo com que valha a pena, com que seja tão bela a vida que nos foi dada.

terça-feira, 13 de abril de 2010

As Duas Faces da Moeda



Chegado a Cabo Verde não precisei de muito tempo para conhecer bem o sítio onde estava. Nesse aspecto, a viagem na caixa aberta daquela pick-up foi bastante elucidativa. Chegado ao hotel, de imediato fiquei espantado, boquiaberto com tanta beleza que tinha à minha frente. Era a natureza a mostrar tudo o que em si é belo e perfeito. A areia tão suave e branca, unia-se a um mar único, todo ele azul turquesa e verde, numa harmonia tão boa de se ver e de ouvir.

No entanto tinha para trás uma viagem que apesar de curta me ensinara o que em anos não havia aprendido. Via casas, ou pelo menos algo parecido, tal era a dissemelhança com o que eu sempre me habituei a chamar assim: amontoados de pedras, rodeados por redes incompletas, contentores a fazer de divisões, rodeados por campos que de tão áridos e desertos transmitiam ainda mais a ideia de pobreza. E onde se podia vislumbrar um pouco mais de civilização, crianças, errando, pediam escudos a quem passava.

O tempo que passei a admirar e usufruir do belo e sumptuoso, dediquei também a rever e relembrar aquele mundo, aquelas pessoas para quem o verbo “ter” não passa duma história contada às crianças, alimentando o sonho de um dia o poderem conjugar.

O desejo sôfrego de liberdade deste jovem país resultou no fim da esperança para a sua juventude. Por isso há as duas faces da moeda. Dum lado estão a liberdade e a independência, do outro o desnorte e as consequências. Um país quer-se livre, mas as pessoas também precisam da liberdade, afinal, o que é um país sem a sua gente?

Contudo, de que me vale ser livre para falar, se eu não me souber exprimir? De que me vale ser livre para votar se não souber o que estou a ouvir? De que me vale ser livre para andar, se não tenho para onde ir? De que me vale a mim a liberdade, se eu não posso escolher ou decidir?

Liberdade é uma bela palavra, mas tem de ser muito mais do que isso. Valerá a pena dizer que a temos, se não a pudermos viver?

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Por um bem maior


Está-se a tornar cada vez mais difícil. O esforço, que dantes não fazia, agora mal me deixa caminhar. As vozes dentro da minha cabeça a ordenarem-me para desistir, já mal me deixam pensar. Mas a minha teimosia tem mostrado não conhecer limites, lutando até ao fim sem se importar com as consequências. O sorriso já mostrou ser forte, a esperança irredutível, só o coração, frágil, se vai desmoronando a cada dia que passa.

Vou escrevendo umas palavras e lendo outras. Sinto-me traído por elas. Antes éramos tão cúmplices, partilhava com elas os meus sentimentos, confessava as minhas emoções, e elas, percebendo-me, ajudavam-me a desafogar as mágoas, a acalmar uma alma que insistia em não se endireitar. Mas hoje não. Cada palavra me atinge como se de uma bala se tratasse, cada letra se une para forjar a conspiração premeditada que no fim me é revelada.

Escrevo uma frase, cai uma lágrima. Não quero continuar, mas algo me diz que o devo fazer, que há um bem que merece mais cuidado do que o meu. Que há um bater de coração que precisa de ser ajudado. Que a minha alma não deve ser ouvida enquanto houver outras para cuidar. Eu tento, e por breves instantes esqueço. Mas ouço logo um pedido de socorro. “Desculpa”, digo-lhe, “eu não te posso ajudar, pede-lhe ou então ao tempo, que é o único que sabe curar”.

E mais um pedaço se solta, devagar.