sexta-feira, 13 de maio de 2011

Escrevo

É nestas alturas que eu escrevo. Quando o dia perde a luz e a noite o luar. Quando lá fora sufoco e preciso de respirar. Quando me quero ir embora, mas espero uma voz que me peça para regressar. Escrevo. E palavra a palavra, ergo um muro, que aos poucos me vai isolando, deixando só, nessa alegre solidão que é o acto de escrever. Para mim escrever é sonhar em papel. E enquanto escrevo sou feliz porque estou a sonhar outra vez. Depois procuro uma melodia, para melhor sentir o que parece que estou a ver e ouvir. Mas de cada vez que escrevo uma canção, solta-se um pedaço do meu coração.
Fico num lugar diferente. Um lugar onde vivo sonhando e respirando calma. Onde recupero a esperança e onde o sonho, por maior que seja, nunca é mais que uma criança. Olho para cima e vejo estrelas. Dizem que estão tão longe, mas a mim parecem-me tão perto. Demasiado perto, criando em mim a ilusão de que as posso tocar se assim quiser e tentar. Esqueço-me muitas vezes que por mais alto que eu suba, há coisas a que não consigo chegar. Que não dependem de quanto eu possa subir, mas sim da sua vontade para descer e se deixar alcançar.          
Será sonhar alto tão mau como não sonhar?

terça-feira, 3 de maio de 2011

A flor

              Um destes dias abri uma porta. E a luz percorreu o quarto, antes tão escuro e agora tão alegre e vivo. Descobri que há mais sonhos para além dos sonhos, há mar depois do mar. Percebi que o quarto, mesmo no escuro, tem estrelas e luar. Senti o perfume, ouvi um respirar, vi uma flor que quis apanhar. Mas a esperança que me levava a sair, embateu na realidade que me fez cair. Tinha um mundo à minha frente, sem o poder viver. É como ter o bilhete para a felicidade, mas não poder apanhar o comboio. É ter o mar como destino, mas não ter barco para navegar. É ver terra no horizonte, mas não ter como remar. É ter a guitarra nas mãos, sem a poder tocar.
                A porta ficou aberta. Sinto o perfume, vejo a flor. E sempre que me levanto, tento pôr um pé nesse mundo, nesse mundo que me chama sem saber, nesse mundo em que eu sonho poder viver. Já caí e vou cair mais vezes, mas espero que a força que vier de tanto cair, me faça apanhar a flor e sair.