É nestas alturas que eu escrevo. Quando o dia perde a luz e a noite o luar. Quando lá fora sufoco e preciso de respirar. Quando me quero ir embora, mas espero uma voz que me peça para regressar. Escrevo. E palavra a palavra, ergo um muro, que aos poucos me vai isolando, deixando só, nessa alegre solidão que é o acto de escrever. Para mim escrever é sonhar em papel. E enquanto escrevo sou feliz porque estou a sonhar outra vez. Depois procuro uma melodia, para melhor sentir o que parece que estou a ver e ouvir. Mas de cada vez que escrevo uma canção, solta-se um pedaço do meu coração.
Fico num lugar diferente. Um lugar onde vivo sonhando e respirando calma. Onde recupero a esperança e onde o sonho, por maior que seja, nunca é mais que uma criança. Olho para cima e vejo estrelas. Dizem que estão tão longe, mas a mim parecem-me tão perto. Demasiado perto, criando em mim a ilusão de que as posso tocar se assim quiser e tentar. Esqueço-me muitas vezes que por mais alto que eu suba, há coisas a que não consigo chegar. Que não dependem de quanto eu possa subir, mas sim da sua vontade para descer e se deixar alcançar.
Será sonhar alto tão mau como não sonhar?