Como quem
nasce para a vida, acordei eu num mundo novo. Primaveras já tinha vivido, mas
nunca um inverno tão cerrado. Sentado, no aconchego da lareira, espreitava pela
janela e via a chuva, o vento, uma tempestade que não havia cá dentro. Mas quis
ver melhor lá para fora, e comecei a abrir, devagar. E irrompeu, batendo as
portas, apagando a lareira, entrando a chuva, o vento, o frio, tornando escura
a casa inteira! Que foi isto que aqui entrou, que o aconchego não dura? O que é
que torna a mentira alegre na verdade mais dura? Eu não sei. Sei que o senti, sei
que entrou, que o ouvi. Não sei que foi. Mas não há frio, nem chuva, nem vento,
nem nuvem, que consigam derrotar a vontade qu’alma tem! E sento-me novamente,
de lareira apagada, à minha volta há outra coisa que jamais será derrubada. E
assim vejo uma vez mais, a porta fecha lentamente, atrás de mim está sempre um
cais, nem sempre o vejo à minha frente. Respiro fundo. Fecho os olhos. Quantas
memórias eu já esqueci e quantas não quis guardar. Quantas gotas terão
adormecido no doce embalo das ondas do mar. A vida não é uma sucessão de coisas
sonhadas, são alegras e tristezas, todas elas inesperadas. Dos que ancoraram no
meu coração, quantos não foram com o mar, tanto tempo perdi olhando o
horizonte, quando nem tinha de navegar. A maré, por mais que se tente, não se
consegue contrariar. Há que encarar a noite com a certeza de um luar. Viver o
que é, não o que foi e era, porque depois de um inverno, vem sempre uma
primavera.
Olá
ResponderEliminarEstava mesmo a precisar de ler o teu texto.
Um pouco de esperânça na próxima Primavera.
Adorei a prosa/poesia.
Um suspiro profundo e amanhã é um novo dia.
bj carinhoso
MG