segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Inverno


Como quem nasce para a vida, acordei eu num mundo novo. Primaveras já tinha vivido, mas nunca um inverno tão cerrado. Sentado, no aconchego da lareira, espreitava pela janela e via a chuva, o vento, uma tempestade que não havia cá dentro. Mas quis ver melhor lá para fora, e comecei a abrir, devagar. E irrompeu, batendo as portas, apagando a lareira, entrando a chuva, o vento, o frio, tornando escura a casa inteira! Que foi isto que aqui entrou, que o aconchego não dura? O que é que torna a mentira alegre na verdade mais dura? Eu não sei. Sei que o senti, sei que entrou, que o ouvi. Não sei que foi. Mas não há frio, nem chuva, nem vento, nem nuvem, que consigam derrotar a vontade qu’alma tem! E sento-me novamente, de lareira apagada, à minha volta há outra coisa que jamais será derrubada. E assim vejo uma vez mais, a porta fecha lentamente, atrás de mim está sempre um cais, nem sempre o vejo à minha frente. Respiro fundo. Fecho os olhos. Quantas memórias eu já esqueci e quantas não quis guardar. Quantas gotas terão adormecido no doce embalo das ondas do mar. A vida não é uma sucessão de coisas sonhadas, são alegras e tristezas, todas elas inesperadas. Dos que ancoraram no meu coração, quantos não foram com o mar, tanto tempo perdi olhando o horizonte, quando nem tinha de navegar. A maré, por mais que se tente, não se consegue contrariar. Há que encarar a noite com a certeza de um luar. Viver o que é, não o que foi e era, porque depois de um inverno, vem sempre uma primavera.

1 comentário:

  1. Olá
    Estava mesmo a precisar de ler o teu texto.
    Um pouco de esperânça na próxima Primavera.
    Adorei a prosa/poesia.
    Um suspiro profundo e amanhã é um novo dia.
    bj carinhoso
    MG

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